quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Transição de Carreira: É Possível em Qualquer Fase da Vida

 


A transição de carreira é, antes de tudo, uma redefinição da identidade profissional, em que o indivíduo passa do “velho” para o “novo” profissional. Ela ocorre por diferentes motivos: insatisfação com o trabalho atual, busca por melhor qualidade de vida, surgimento de novos interesses, altos níveis de estresse ou necessidade de recolocação no mercado.

Embora o impulso para mudar possa surgir em momentos de crise, o processo não é apenas reativo. Muitas vezes, trata-se de um movimento estratégico para valorização profissional, atualização de competências e alinhamento da carreira com objetivos pessoais e valores.

O planejamento é essencial para reduzir riscos. Isso inclui criar uma reserva financeira suficiente para sustentar a transição — idealmente de alguns meses de despesas — e desenvolver previamente as habilidades necessárias para o novo caminho profissional.

Uma transição de carreira envolve atividades bem definidas:

  • ·      Autoconhecimento — compreender interesses, habilidades e valores pessoais.
  • ·     Pesquisa sobre a nova área — entender oportunidades, desafios e requisitos do mercado.
  • ·     Networking — conversar com profissionais da área, participar de grupos e eventos.
  • ·     Qualificação — cursos, workshops e certificações que aumentem a empregabilidade.
  • ·    Transição gradual — nem sempre é necessário mudar imediatamente; muitas vezes é possível conciliar carreiras temporariamente antes da mudança definitiva.
  • ·   Cultura - atua como o conjunto de valores, crenças e normas que guiam comportamentos, moldam a identidade da empresa e influenciam diretamente a produtividade, o engajamento, a retenção de talentos, capacidade de adaptação a mudanças, sendo fundamental para o sucesso estratégico e um clima de trabalho saudável.

Entre as tendências atuais, muitas transições acontecem para áreas como tecnologia (dados e inteligência artificial), ESG, saúde e bem-estar e marketing digital, refletindo a evolução do mercado de trabalho e novas demandas profissionais.

O processo de transição é natural e pode ocorrer em qualquer fase da vida, não apenas em momentos de crise. Quando bem planejada, a mudança é uma oportunidade para crescimento, aprendizado e valorização profissional, tornando a carreira um caminho de evolução contínua.

A minha trajetória exemplifica essa realidade, passando por diversas transições de vida que nem sempre puderam ser planejadas estrategicamente. Na carreira, os marcos dessas transições profissionais podem ser facilmente observados: do curso técnico para gestão de implantação de redes de telecomunicações; que acabaram a tornar necessário o conhecimento de direito contratual e administrativo, levando ao interesse de cursar direito. Da advocacia ao serviço público, do ensino e palestras ao empreendedorismo imobiliário — cada uma com valores distintos e objetivos específicos, mostrando que a reinvenção profissional é possível em todas as idades.

1. Transição Pós-Faculdade e Início da Carreira (20 anos)

Momento típico

Após concluir o curso técnico, por volta dos 20 anos, surge a oportunidade de carreira na área de telecomunicações. Essa fase é marcada pelo primeiro emprego em uma grande corporação, quando o jovem profissional ainda está construindo sua identidade e definindo interesses.

Desafios comuns:

  • ·         Identidade profissional em formação.
  • ·         Pouca experiência prática no mercado.
  • ·         Medo de errar ou escolher uma área que não combine com vocação.

Cada movimento foi cuidadosamente planejado estrategicamente, focando em:

  • ·         Exploração de áreas correlatas para entender melhor seus interesses.
  • ·    Construção de portfólio e habilidades de mercado nos primeiros anos que seriam úteis no futuro.
  •      Valores predominantes: aprendizagem, experimentação e desenvolvimento profissional.

2. Transição com Mudanças de Rumo na Vida (30 anos)

Situações comuns

Por volta dos 30 anos, a vida prepara uma grande mudança: de telecomunicações pela privatização das empresas de telefonia para advocacia. Pouco depois de formado, fui convidado a assumir cargos públicos em outro estado, implicando mudança de residência, adaptação uma nova área de conhecimento, desenvolvimento de uma nova network, adaptação a um novo estilo de vida e redefinição de prioridades.

Amplia-se a ação em outra área, magistério superior na área de direito e negócios o que inclui mentorias.

Desafios típicos desta fase são observados pela:

  • ·         Necessidade de equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
  • ·         Mudança de prioridades: propósito > status; estabilidade > ambição.
  • ·         Pressão financeira e logística de mudança de residência.
  • ·         Medo de “perder a trajetória” ou retroceder profissionalmente.
  • ·         Necessidade de aprimoramento acadêmico e técnico.

Essa transição foi planejada estrategicamente, considerando o alinhamento com propósito e valores pessoais, focando em impacto social e contribuição pública, o planejamento familiar e financeiro para viabilizar a mudança de estado e os valores predominantes como propósito, estabilidade e impacto social.

3. Transição e Recomeço na Fase 50+

Perfil típico

Aos 50 anos, já acumulava experiência como professor, advogado e palestrante. Mais recentemente, ele iniciou sua trajetória uma nova ação, como empresário e gestor de negócios imobiliários, demonstrando que transições de carreira são possíveis mesmo em fases maduras da vida.

Desafios comuns

  • ·         Reposicionamento no mercado após décadas em funções anteriores.
  • ·         Necessidade de atualização tecnológica e novas competências.
  • ·         Ajuste do estilo de vida à nova fase: saúde, energia e propósito.
  • ·         Manter autoconfiança diante de novos desafios.
  • ·         Vencer preconceitos como etarismo.

Estratégias e planejamento

Nesta fase, a transição também seguiu planejamento estratégico, considerando a reavaliação de competências e paixões, aplicando experiência acumulada em novos negócios, atualização de habilidades, cursos e networking estratégico para expandir oportunidades e os valores predominantes: independência, empreendedorismo, impacto econômico e pessoal.

A trajetória mostra que a transição de carreira é possível em qualquer fase da vida, quando guiada por:

  • ·         Planejamento estratégico, para definir objetivos claros e passos realistas.
  • ·         Autoconhecimento, para identificar paixões, valores e competências.
  • ·         Apoio, de parceiros, mentores ou redes profissionais.

Cada fase da vida exige valores distintos, e cada transição bem-sucedida resulta da combinação de planejamento, reflexão e ação alinhada aos objetivos pessoais. Carreira não é linha reta, mas um caminho de evolução contínua, aprendizado e reinvenção.

Adote um planejamento e as desenvolva as estratégias para a transição de carreira a depender do momento em que esteja.

1. Transição Pós-Faculdade e Início da Carreira

Ao sair da faculdade — seja graduação ou tecnólogo — o recém-formado enfrenta a expectativa de escolher seu rumo profissional. O primeiro emprego, estágio ou trainee muitas vezes parece definir toda a trajetória futura. Além disso, existe a pressão social para “saber o que quer para a vida”.

Experimente funções e áreas correlatas dentro do seu campo de interesse. Por exemplo, alguém de administração pode testar marketing, finanças ou RH.

Use experiências práticas como estágios, trainees, projetos voluntários ou freelas permitem testar interesses antes de assumir grandes compromissos.

Converse com profissionais e a rede de ex-alunos, LinkedIn e grupos da área ajudam a entender o dia a dia das profissões.

Planeje os primeiros anos com o objetivo de construir portfólio e habilidades de mercado. Foco em experiências, feedbacks e networking, mais do que apenas salário.

Uma boa alusão é não cometer os erros da falta de planejamento para o ingresso na nova área. O tema trazido no filme O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger, que narra a história de Andrea Sachs, uma jovem recém-formada que conquista o cobiçado cargo de assistente de Miranda Priestly, poderosa editora da revista de moda Runway.

No entanto, Andrea logo descobre que o emprego dos sonhos é, na prática, uma rotina exaustiva de atender aos caprichos da chefe, como buscar roupas na lavanderia, organizar babás e resolver situações absurdas, deixando de lado suas próprias ambições jornalísticas.

O filme oferece um olhar divertido e crítico sobre os bastidores do mundo da moda, mostrando o contraste entre glamour e realidade e permite desenvolver a percepção que o rumo profissional sempre pode ser realinhado com o retorno ao jornalismo.

Uma boa reflexão nesta fase: "Se você pudesse testar 3 carreiras diferentes pelos próximos 6 meses, quais escolheria e por quê?"

2. Transição com Mudanças de Rumo na Vida

Situações comuns são mudanças pessoais significativas — casamento, nascimento de filhos, mudança de cidade ou país, doenças, luto — transformam a relação com o trabalho. O foco passa de “só carreira” para “carreira + vida”.

Estratégias para transição mais utilizadas estão voltadas à racionalização e uso da crise como ponto de virada

Substitua o pensamento “tenho que continuar porque sempre fiz assim” por “o que realmente importa para mim agora?”.

Alinhe carreira à nova realidade com flexibilidade: regimes híbridos, home office, freelancing ou empreendedorismo. A estabilidade advém do fato que priorize a segurança, benefícios e ambiente saudável aliado ao propósito no desenvolvimento de funções que reflitam seus valores pessoais (ex.: sustentabilidade, educação, saúde).

Planeje com a família: Conversas sobre finanças, divisão de tarefas domésticas, apoio emocional e metas de longo prazo são essenciais.

Fortaleça sua rede de apoio: Família, amigos ou terapeuta ajudam a manter foco, clareza e saúde mental.

Uma ótima referência é ilustrada no “Os Estagiários” (2013), comédia norte-americana estrelada por Owen Wilson e Vince Vaughn, que conta a história de Billy McMahon (Vince Vaughn) e Nick Campbell (Owen Wilson), dois vendedores na faixa dos 40 anos que perdem seus empregos após a empresa de relógios em que trabalhavam fechar.

Determinados a recomeçar, Billy e Nick conseguem, após uma entrevista via Skype, duas vagas de estágio na Google Inc. No entanto, o que eles encontram na empresa não é exatamente o que esperavam, enfrentando desafios e situações que testam sua adaptabilidade e criatividade.

O filme aborda temas relevantes no contexto das grandes empresas de tecnologia, como:

  1. Idade dos colaboradores – A predominância de jovens no ambiente corporativo e os desafios de se inserir nesse cenário mais jovem.
  2. Cultura organizacional – O universo criado por empresas como a Google, onde os colaboradores trabalham motivados não apenas pelo salário, mas também pelas ideologias e valores da empresa.
  3. Diversidade e respeito – Mesmo em ambientes de ampla diversidade cultural e ideológica, onde respeito e empatia são promovidos, ainda podem ocorrer casos de bullying e preconceito.
  4. Recomeço e superação – O filme reforça que nunca é tarde para aprender, se reinventar e buscar novas oportunidades.

Há uma ótima uma reflexão sobre adaptação, aprendizado contínuo e superação em um ambiente corporativo moderno, para quem de certa forma busque o novo desafio dentro de um risco mais controlado.

A reflexão para essa fase: "Quais são minhas 3 principais prioridades de vida hoje? Como quero que a carreira ajude nisso?"

 3. Transição e Recomeço na Fase 50+

Perfil típico se relaciona a profissionais entre 50 e 65 anos que estão há muitos anos em uma carreira consolidada e sentem necessidade de mudança, reinvenção ou mais significado no trabalho.

Podem enfrentar desafios como desvalorização percebida pelo mercado ou falta de atualização tecnológica. São várias as manifestações: exclusão em processos seletivos, desvalorização da opinião, falta de oportunidades de capacitação e representações negativas na mídia.

O mercado desconsidera que o envelhecimento é um ciclo natural, promovendo uma visão ilusória de que a juventude é o único padrão aceitável, mas cuja experiência pode ser muito proveitosa como um diferencial estratégico.

Desafios comuns:

  • ·         Dificuldade de reposicionamento no mercado tradicional.
  • ·         Necessidade de aprender novas tecnologias e competências.
  • ·         Questões de autoconfiança: medo de não ser competitivo.
  • ·         Ajuste do estilo de vida à nova fase: saúde, energia e propósito.

Estratégias para transição:

·         Reavalie competências e paixões e identifique experiências acumuladas que podem ser aplicadas em novas áreas ou como consultoria/mentoria.

·         Atualize habilidades com cursos online, workshops, bootcamps ou certificações podem abrir portas em setores emergentes e estabeleça uma networking estratégica com a conexão com profissionais de diferentes gerações aumentando oportunidades e visibilidade.

·         Considere modelos alternativos como freelance, consultoria, projetos voluntários ou empreender em nichos de interesse pessoal e profissional.

Uma ilustração divertida é trazida no filme "Um Senhor Estagiário" (2015) que acompanha Ben Whittaker (Robert De Niro), um viúvo de 70 anos que, entediado com a aposentadoria, torna-se estagiário sênior em um site de moda online de sucesso, fundado por Jules Ostin (Anne Hathaway). O filme aborda o choque de gerações, a experiência versus a tecnologia, e o etarismo, transformando Ben em um conselheiro inestimável para a jovem CEO.

Uma reflexão para essa fase: "Se eu pudesse começar um projeto novo hoje, que unisse experiência, paixão e impacto, qual seria?"

 Conclusão

A transição de carreira — seja por desemprego, insatisfação profissional ou desejo de mudança — e o empreendedorismo estão fortemente interligados.

Ao mudar de área ou buscar novas oportunidades, muitas vezes se depara com a necessidade de assumir riscos, desenvolver habilidades novas e buscar soluções criativas para se destacar no mercado. Esses são exatamente os pilares do espírito empreendedor.

A transição de carreira pode ser vista como um exercício prático de empreendedorismo pessoal. Ao assumir riscos, desenvolver competências e se reinventar, o profissional se torna mais autônomo, resiliente e capaz de criar oportunidades, independentemente do caminho escolhido.

Afinal, a mudança sempre valerá a pena!

 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entre o Poder, a Serenidade e o Absurdo: Filosofia para a Modernidade Líquida e VUCA

Vivemos em um tempo marcado pela instabilidade e pela incerteza. A modernidade líquida, como descreve Zygmunt Bauman, dissolveu estruturas fixas e vínculos duradouros, tornando relações, empregos e até valores cada vez mais efêmeros. Ao mesmo tempo, o mundo contemporâneo é VUCA — Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo — um cenário onde mudanças rápidas, decisões arriscadas e múltiplas variáveis são a regra. Nesse contexto, questões sobre propósito, sentido e resiliência deixam de ser meras abstrações filosóficas e tornam-se desafios práticos do dia a dia.

É nesse cenário que três tradições filosóficas — Nietzsche, Estoicismo e Existencialismo — se mostram surpreendentemente atuais, oferecendo ferramentas para navegar tanto a fluidez social quanto a volatilidade do mundo.

 

Nietzsche e o Übermensch: criatividade e coragem

Nietzsche apresenta o Além-do-Homem (Übermensch) como o indivíduo que cria seus próprios valores e afirma a vida em sua plenitude. Em um mundo líquido e VUCA, onde normas tradicionais se desfazem e a instabilidade é constante, essa filosofia se torna essencial: quem não depende de estruturas externas é mais capaz de se reinventar e transformar desafios em oportunidades.

O risco, porém, é que a liberdade e a autonomia radical possam gerar ansiedade se não houver discernimento. Ainda assim, a mensagem de Nietzsche nos inspira a enfrentar o caos com coragem, buscando autossuperação e inovação constantes.

 

Estoicismo: serenidade e resiliência

Enquanto Nietzsche nos desafia a criar, o Estoicismo nos ensina a aceitar o que não podemos controlar e a cultivar a virtude interna. Em contextos complexos e ambíguos, essa perspectiva oferece estabilidade: mantém a clareza e evita decisões precipitadas.

No mundo líquido e VUCA, a serenidade estoica funciona como um porto seguro, permitindo agir com foco, disciplina e resiliência, mesmo diante de mudanças rápidas ou perdas inesperadas. Em outras palavras, o estoicismo nos lembra que a estabilidade real não vem do controle sobre o mundo, mas do domínio de si.

 

Existencialismo: liberdade e responsabilidade diante do absurdo

O Existencialismo, representado por Sartre e Camus, confronta-nos com a liberdade absoluta e a responsabilidade individual em um universo sem sentido pré-determinado. Na modernidade líquida e VUCA, cada decisão é carregada de risco e imprevisibilidade — exatamente o tipo de cenário em que o existencialismo se aplica.

Essa filosofia ensina que a angústia é inevitável, mas a autenticidade e a criação de sentido são escolhas que nos pertencem. Profissionais e líderes existencialistas não esperam garantias externas; assumem suas escolhas, aprendem com os erros e constroem significado mesmo em meio à incerteza.

 

Síntese: filosofias complementares para tempos instáveis

Filosofia

Aplicação no mundo líquido e VUCA

Ferramentas práticas

Nietzsche (Übermensch)

Adaptabilidade criativa, transformação da adversidade

Coragem, inovação, autos superação

Estoicismo

Controle interno, foco no essencial, resiliência

Serenidade, disciplina, clareza em decisões complexas

Existencialismo

Criação de sentido e responsabilidade diante do absurdo

Autenticidade, tomada de decisão consciente, aprendizado com falhas

Conclusão

A modernidade líquida e VUCA exige mais do que habilidades técnicas ou adaptação superficial. Ela demanda flexibilidade, coragem, discernimento e responsabilidade ética. Nietzsche nos inspira a transformar desafios em oportunidades e criar novos caminhos; o Estoicismo nos dá serenidade e resiliência diante da complexidade; e o Existencialismo nos lembra que a liberdade de escolha é inevitável e exige autenticidade.

Em última análise, viver hoje é um ato de afirmação, aceitação e criação de sentido. Filosofia, mais do que uma reflexão intelectual, torna-se uma ferramenta prática de gestão da vida — capaz de nos orientar na turbulência e nos ajudar a encontrar solo firme, mesmo quando tudo ao redor parece instável e incerto.

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Opinião: A liberdade restrita pelo excesso do poder punitivo.


Opinião:

A liberdade restrita pelo excesso do poder punitivo.

Vivemos no Brasil entre o Estado Policial e o Estado-Gendarme Acusador o que aponta para a Restrição das Liberdades, especialmente de livre expressão.

Nesse contexto, emergem duas figuras centrais: o Estado policial e o Estado-gendarme acusador, ambos caracterizados pela expansão do controle estatal e pela progressiva erosão das garantias fundamentais, numa censura direta e restritiva, que demonstra a tensão permanente entre a necessidade de segurança e a preservação das liberdades individuais.

Estão cada vez mais presentes os momentos de crise sejam: real ou fabricada pela construção de narrativas de desinformação organizada e política, divulgadas pela facilidade de exposição nas redes sociais, gerando sempre uma tensão tendente a se resolver em favor do fortalecimento do poder punitivo.

Aliados ao controle estatal observa-se a construção de um verdadeiro aparato para que seja reafirmado o “cancelamento social” propiciada pela deslegitimação pública, cujo objetivo é o silenciamento e punição simbólica de uma pessoa em razão de uma opinião, posicionamento ou expressão considerada inadequada, ofensiva ou contrária a determinados valores dominantes em um grupo social ou comunidade digital, numa verdadeira censura social difusa à liberdade de expressão associada à pressões institucionais, com denúncias estratégicas ou uso do aparato jurídico dentro dos modelos apresentados pelo Estado utilizados de maneira abusiva e opressora.

Embora haja diferenças conceituais e operacionais do Estado policial e o Estado-gendarme acusador como instrumentos utilizados pelo governo, compartilham um traço comum: a centralidade da suspeita e da repressão como técnicas de governo, especialmente quando há oposição.

O Estado policial é marcado pela lógica da prevenção absoluta, na qual o cidadão deixa de ser titular de direitos para tornar-se objeto de vigilância. Isso é sentido no excesso de interpretações normativas, criadas para que se fundamente o ato arbitrário com uma base legal - punitiva para que a atuação estatal anteceda o ilícito, baseando-se em presunções de periculosidade e não em fatos juridicamente comprovados.

Nesse modelo, a polícia deixa de ser um instrumento subordinado à lei para converter-se em instância autônoma de poder, com ampla discricionariedade, trazendo consequências profundas que promovem desde a relativização do princípio da legalidade, enfraquecimento do devido processo legal e naturalização de práticas invasivas, como vigilância em massa, detenções arbitrárias e uso excessivo da força.

Ou seja, a liberdade deixa de ser a regra, passando a ser uma concessão condicionada ao comportamento considerado “aceitável” pelo aparato estatal.

Já o Estado-gendarme acusador opera, em aparência, dentro da legalidade formal, diferenciando-se do Estado policial clássico pelo discurso jurídico que legitima a utilização do processo penal como ferramenta central de controle social.

No entanto, essa legalidade é frequentemente esvaziada de seu conteúdo garantista, quando aplicada apenas à determinados casos ou grupos pela discricionariedade do operador do direito envolvido.

No modelo do Estado-gendarme acusador, são acumuladas funções que deveriam ser distintas, alinhando a investigação, acusação e, de forma indireta, condiciona o julgamento. Assim, o processo deixa de ser um espaço de apuração imparcial da verdade e transforma-se em mecanismo de confirmação da acusação com repercussões diversas.

A presunção de inocência é invertida, a ampla defesa torna-se obstáculo e o acusado passa a ser tratado como inimigo do corpo social.

O resultado é um sistema no qual a pena — ou seus efeitos simbólicos e sociais — antecede a sentença.

A simples condição de investigado já implica estigmatização, restrição de direitos e exclusão.

Ou seja, embora distintos em forma, o Estado policial e o Estado-gendarme acusador convergem em substância, pois ambos: Privilegiam a lógica da segurança em detrimento da liberdade; operam a partir da construção do “inimigo”; fragilizam garantias fundamentais sob o argumento da eficiência repressiva.

A diferença principal reside no modo de legitimação. O Estado policial age pela força direta e pela exceção explícita; o Estado-gendarme acusador, pela normalização da exceção dentro do discurso jurídico. Este último é particularmente perigoso, pois mascara o autoritarismo sob a aparência de legalidade e racionalidade institucional.

Atualmente vivemos os impactos sobre as liberdades e o Estado de Direito, pois se utilizam massivamente ambos os modelos que corroem o Estado de Direito ao substituir direitos por mecanismos de controle. A liberdade individual, a intimidade, o contraditório e a presunção de inocência tornam-se obstáculos a serem superados, e não pilares a serem protegidos.

A democracia, nesse cenário, subsiste apenas como forma, esvaziada de conteúdo material, sendo que nenhuma política de segurança ou ordem é legítima quando construída à custa das liberdades fundamentais.

Resistir a essas formas de controle excessivo do Estado é, portanto, defender não apenas direitos individuais, mas a própria ideia de justiça como limite ao poder, insurgindo contra tais abusos e pressões institucionais, exercendo a cidadania pela expressão, voto, contrariando a censura social difusa em prol do pluralismo de ideias e afastamento do “discurso aceitável” que penaliza opiniões dissidentes. Ou seja, contra a instalação do conformismo e medo de se expressar.

Somente assim é que se alcançará o que está contido como preceito fundamental na Constituição Federal que é a construção de uma sociedade plural, fraterna e harmônica, capaz de atender a todos de maneira digna.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Reflexão sobre a pós pandemia COVID19


Em meio da pandemia ocasionada pelo Covid 19 devemos pensar quais serão as medidas adotadas de vigilância em saúde quando verificada situação de iminente perigo à saúde pública como essa?
O Brasil adotará alguma medida mais severa de biosegurança?
Permanecerá seguindo pela mesma forma inadequada de lidar com uma epidemia de grande porte como foi a Zyka, H1N1 e agora o Covid19 que nos trouxe consequências catastróficas não somente à saúde da população, mas em todos os aspectos da sociedade com políticas públicas de acesso geral à saúde e à seguridade social que não atingem o real destinatário, ou seja, a população mais pobre e em maior risco?
Permanecerá em um sistema reativo e causuístico com medidas esparsas, editadas por mero oportunismo e populismo, mas sem efetividade ou dotação adequada no orçamento público?
Será que esse caos não propicia o oportunismo das aquisições de bens sem controle, dispersão de verba pública de forma desmedida e ilegal, apenas justificada pela sombra da “necessidade urgente”?
É quase um verdadeiro sistema de lavagem de dinheiro, onde se oculta os valores obtidos pela atividade de dispensação de verba pública sem observância da lei dificultando o seu rastreamento; dissimula-se a ação por um conjunto de atos, muitas vezes realizados por acobertados que realizam as atividades e transações superfaturadas, direcionadas ou até mesmo, inexistentes e, por fim, integram esse dinheiro na forma de lucro das atividades de ações aparentemente lícitas, mas que não se dissociam da atividade contrária a ética?
É lamentável, um país com o imenso potencial e com esse povo resiliente ficar submetido à pandemia ocasionada pelo egoísmo e arrogância dos nossos governantes, que nada mais são do que servidores públicos, mas agem como donos do patrimônio público.
Acredito que o povo, independente de ideologia, exige medidas criadas de forma mais permanente e segura por parte do Estado, não somente para enfrentamento da tragédia sanitária em que vivemos e que podemos sofrer no futuro, justamente para afastar a todos do padecimento da inefetividade e incoerência.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Direito Preventivo na empresa

A sociedade com base na economia de mercado aberto, por apresentar características de alta competitividade e diminuta margem de lucratividade, não permite erros nos atos negociais.

A viabilidade dos negócios muitas vezes ocorre sobre informações nem sempre aprofundadas, capazes de subsidiar adequadamente a tomada de decisões, resultando em situações imprevisíveis e de difícil solução para o empresário.

É sabido que o crescimento das empresas depende diretamente de sua capacidade de aprender e de correr riscos, os quais devem ser conhecidos e controlados, para evitar resultados indesejáveis. Qualquer empresário já conhece esses ensinamentos de Peter Drucker, que já se indignava com aqueles que escolhem o caminho do crime, “quando há tantas maneiras legais de se ser desonesto”.

Neste contexto, a análise de risco do negócio com base no “Direito Preventivo” se torna uma ferramenta eficaz para proteção do patrimônio intelectual e material das empresas nas negociações e em momentos posteriores, justamente para minimizar a falta de clareza nas informações.

Indicativos como a forma de gestão da mão-de-obra; dissídios trabalhistas; débitos e oportunidades de créditos tributários; situação de credores e devedores; sanidade financeira de clientes e fornecedores são elementos essenciais para a concretização de um bom negócio, evitando a inadimplência de créditos e oportunidades de negociação de débitos.

No entanto, não basta somente que tais indicativos sejam levantados por profissionais que não estejam engajados na cultura da empresa com o envolvimento no processo administrativo e contábil, sob o risco de não perceber a informação de maneira adequada.

Essa orientação deve ser efetiva desde a entrevista, até o assessoramento da efetivação de negócios com os seus parceiros e credores, assegurando ao empresário a confiabilidade necessária para a tomada de decisão, aproveitando boas oportunidades.

As decisões amparadas nas informações desse assessoramento possibilitam evitar prejuízos por relações comerciais com clientes de baixa confiabilidade, sem que haja a garantia de recebimento dos créditos, comprometendo a estrutura financeira da empresa. Ainda, diminui o risco de demandas trabalhistas e indica oportunidades de negociação com a Administração Pública na esfera tributária.

Esse serviço não se restringe apenas à grandes corporações, mas a todo tipo de negócio, sendo adequado ao volume e segmento da empresa.

O resultado é a proteção dos investimentos e a garantia de perpetuação do negócio.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Bem vindos.

Nossa relação com o mundo está mudando. Hoje, estamos presos à uma teia de informações e relações interpessoais que nem temos como medir sua extensão. Tem gente que nos conhece sem mesmo nunca ter nos visto. Estamos sujeitos a sermos pesquisados, devassados em nossa intimidade com o apertar de botões. Somos objeto de pesquisa, de análise de perfil, de gostos, de estatística, enfim, somos hoje, apenas um dado, num enorme banco de dados chamado cyberespaço. Confesso que, estou re-aprendendo a me relacionar com o mundo, com linguagem própria, conduta própria, onde tudo é rápido, expresso, enfim, volátil. Não existe mais a descoberta da aproximação. Mal você entra na net, alguém pergunta "VC QUER TC?" (TC? QUE É ISSO?) Eu encaro como um novo verbo (teclar) que significa falar pelo teclado. Isso sem falar na simbologia que nem mesmo um professor de criptografia é capaz de entender na totalidade. (V6 TEM ICQ?) Coisa de doido!!! Mas ao menos, voltamos a escrever, deixamos um pouco de lado a falta de interação causada pela TV, pelo rádio. Nos tornamos uma ilha no meio de um mar de informações. Estamos mais curiosos, pois nossa curiosidade é atendida na ponta de nossos dedos. Temos à disposição toda gama de dispositivos de busca, mecanismos de inter-relação de informações, de pessoas, forma de transmitir saberes e de receber aquilo que buscamos. Essa tecnologia intelectual tem suas facilidades e seu preço. Podemos articular milhões de pessoas desconhecidas a se reunirem na Avenida Paulista em São Paulo para protestar sobre algo, sem que haja qualquer cartaz ou propaganda por aí. Podemos entrar na página de relacionamento de uma pessoa para levar nossa consternação ou revolta por um acontecimento, só porque temos a certeza que essa pessoa tem sua página lá. Podemos passar e receber informações para o mundo na velocidade da luz, utilizando uma infovia ótica que liga sua casa ao planeta todo. Assistindo o desenho animado Wall-E com meu filho, percebi o que a tecnologia em favor da extrema comodidade pode causar. Nos importamos mais com o fato de que faltou energia ou que o micro não conecta do que plantar uma árvore ou simplesmente caminhar na praia para ver o sol se por. De qualquer sorte a tecnologia está aí para ser usada, nunca para nos escravizar. Afinal, para que serve a internet? Pensem nisso!